Bibliografia
Comparação da distribuição de tensões entre implantes dentários convencionais instalados em osso enxertado, implantes zigomáticos e implantes subperiósticos na maxila atrófica edêntula: uma análise tridimensional por elementos finitos
- 21 Abril 2023
- Publicado por: anjaform
- Categoria: Estudos por Elementos Finitos
H Gözde Keleş, Çiğdem Karaca
Full text link : https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37083910/
Comparação da distribuição de tensões entre implantes dentários convencionais instalados em osso enxertado, implantes zigomáticos e implantes subperiósticos na maxila atrófica edêntula: uma análise tridimensional por elementos finitos
1. Referência científica
- Título do estudo: Comparison of Stress Distribution Among Standard Dental Implants Placed in Grafted Bone, Zygomatic Implants, and Subperiosteal Implants in the Atrophic Edentulous Maxilla: 3D Finite Element Analysis
- Autores: H. Gözde Keleş, Çiğdem Karaca
- Revista científica: The International Journal of Oral & Maxillofacial Implants
- Ano de publicação: 2023
- DOI: 10.11607/jomi.9987
2. Contexto científico
A reabilitação da maxila totalmente edêntula e severamente atrófica continua sendo um dos maiores desafios da implantodontia e da cirurgia oral contemporânea. A perda óssea progressiva associada à pneumatização dos seios maxilares reduz significativamente o volume ósseo disponível, limitando a instalação de implantes dentários convencionais sem procedimentos prévios de reconstrução óssea.
Diversas abordagens terapêuticas têm sido desenvolvidas para contornar essa limitação anatômica. Os enxertos ósseos autógenos permanecem entre as técnicas mais utilizadas para restabelecer o volume ósseo adequado à instalação de implantes. Em situações de atrofia avançada, os implantes zigomáticos surgem como uma alternativa à reconstrução óssea extensa. Mais recentemente, os implantes subperiosteais personalizados, produzidos com auxílio de tecnologias digitais e materiais como titânio e poliéter-éter-cetona (PEEK), voltaram a despertar interesse clínico.
Embora essas modalidades apresentem resultados promissores na literatura, comparações biomecânicas diretas são pouco frequentes. Nesse contexto, compreender como cada solução distribui as cargas funcionais pode contribuir para a otimização dos protocolos de reabilitação implanto-suportada em pacientes com atrofia maxilar severa.
3. Objetivo do estudo
O objetivo principal deste estudo foi comparar o comportamento biomecânico de quatro estratégias cirúrgicas utilizadas na reabilitação fixa implanto-suportada da maxila atrófica edêntula.
Os autores investigaram a distribuição das tensões no tecido ósseo, nos implantes, nos pilares protéticos e nas infraestruturas protéticas, buscando identificar as vantagens e limitações mecânicas associadas a cada modalidade terapêutica.
4. Metodologia
Trata-se de um estudo pré-clínico baseado em análise tridimensional por elementos finitos (3D Finite Element Analysis – FEA).
Um modelo virtual de maxila atrófica edêntula foi desenvolvido a partir de imagens de tomografia computadorizada. Foram simulados quatro cenários terapêuticos:
- Reconstrução da maxila com enxerto ósseo onlay proveniente da crista ilíaca anterior associado à elevação bilateral do seio maxilar e instalação de implantes convencionais.
- Reconstrução da região anterior com enxerto ósseo do ramo mandibular associada à instalação de implantes zigomáticos na região posterior.
- Utilização de implantes subperiosteais personalizados em titânio.
- Utilização de implantes subperiosteais personalizados em PEEK.
Todos os modelos receberam uma carga vertical de 150 N e uma carga lateral de 50 N. A distribuição das tensões foi então analisada no osso cortical, no osso trabecular, nos implantes, nos pilares e nas estruturas protéticas.
5. Principais resultados
Os resultados demonstraram diferenças biomecânicas importantes entre os quatro modelos avaliados.
O modelo reconstruído com enxerto da crista ilíaca apresentou os maiores valores de tensão de tração tanto no osso cortical quanto no osso trabecular sob carregamento vertical. Esse mesmo grupo também registrou os maiores valores de tensão de von Mises nos implantes.
Os implantes subperiosteais confeccionados em PEEK apresentaram os maiores níveis de tensão compressiva no osso cortical e trabecular. Segundo os autores, as tensões observadas no osso trabecular ultrapassaram o limite fisiológico de resistência considerado para esse tecido.
Os implantes subperiosteais de titânio apresentaram os maiores valores de tensão nos pilares protéticos e nas infraestruturas protéticas. Tanto sob carga vertical quanto lateral, esse modelo concentrou as maiores tensões nas estruturas protéticas avaliadas.
De forma geral, nenhum dos quatro cenários apresentou desempenho biomecânico superior em todos os parâmetros analisados.
6. Análise clínica
Os resultados desta investigação reforçam a complexidade envolvida na reabilitação de pacientes com atrofia maxilar avançada. Em vez de apontar uma solução universalmente superior, o estudo demonstra que cada estratégia transfere e distribui as cargas funcionais de maneira distinta.
A reconstrução com enxerto ilíaco possibilita a utilização de implantes convencionais, mas mostrou maior concentração de tensões tanto no tecido ósseo quanto nos implantes. Essa observação pode estar relacionada às características mecânicas do enxerto utilizado e à sua capacidade de suportar cargas funcionais.
A combinação de enxerto do ramo mandibular e implantes zigomáticos apresentou um comportamento biomecânico relativamente favorável em determinadas regiões ósseas. Entretanto, as tensões observadas nos implantes sob carregamento lateral indicam a importância de um planejamento protético cuidadoso e de um adequado controle oclusal.
A comparação entre implantes subperiosteais de titânio e de PEEK revelou diferenças relevantes. O PEEK parece transmitir uma parcela maior das cargas diretamente ao osso circundante, enquanto o titânio concentra parte significativa das tensões na própria estrutura implantar e protética.
Como os resultados derivam de simulações computacionais, não devem ser interpretados como evidência direta de sucesso clínico a longo prazo, mas sim como informações biomecânicas úteis para o planejamento de tratamentos complexos.
7. Aplicações clínicas
Os achados deste estudo podem ser particularmente relevantes em situações como:
- Reabilitação de pacientes com maxila severamente atrófica.
- Tratamentos implanto-suportados em pacientes totalmente edêntulos.
- Procedimentos de enxertia óssea autógena.
- Planejamento de reabilitações com implantes zigomáticos.
- Utilização de implantes subperiosteais personalizados.
- Fluxos digitais CAD/CAM aplicados à implantodontia avançada.
- Reabilitações protéticas fixas de arco completo.
Além disso, os resultados destacam a importância da análise biomecânica na seleção da abordagem cirúrgica e protética mais adequada para cada caso clínico.
8. Nível de evidência, limitações e transparência
Este trabalho corresponde a um estudo pré-clínico de análise por elementos finitos, oferecendo informações biomecânicas relevantes, mas com um nível de evidência inferior ao de estudos clínicos prospectivos, ensaios clínicos randomizados ou revisões sistemáticas.
Os autores reconhecem algumas limitações metodológicas importantes. Os modelos utilizados baseiam-se em pressupostos teóricos e não reproduzem integralmente as condições biológicas encontradas na prática clínica. Além disso, a distribuição das tensões nos parafusos de fixação dos implantes subperiosteais não foi especificamente analisada.
Dessa forma, os resultados devem ser interpretados com cautela e considerados como uma ferramenta complementar para compreensão biomecânica, exigindo validação por meio de estudos clínicos e pesquisas in vivo.
O estudo recebeu financiamento da Unidade de Coordenação de Projetos Científicos da Universidade Hacettepe. Os autores declararam não possuir conflitos de interesse relacionados à pesquisa.
9. Pontos-chave do estudo
- Tipo de estudo: Análise tridimensional por elementos finitos (3D FEA)
- Nível de evidência: Estudo pré-clínico computacional
- Amostra analisada: Modelo virtual de maxila atrófica edêntula
- Número de pacientes: Não aplicável
- Número de implantes: Variável de acordo com cada cenário simulado
- Tempo de acompanhamento: Não aplicável
- Desfecho principal: Distribuição das tensões biomecânicas
- Principal resultado: Nenhuma abordagem apresentou superioridade biomecânica global
- Conclusão científica: Cada estratégia apresenta vantagens e limitações mecânicas específicas
- Principais limitações: Simulação computacional e ausência de validação clínica direta
10. Impacto científico
Este estudo contribui para a literatura científica ao comparar diretamente diferentes abordagens utilizadas na reabilitação de maxilas severamente atróficas. A comparação simultânea entre enxertos ósseos autógenos, implantes zigomáticos e implantes subperiosteais personalizados oferece uma visão abrangente das implicações biomecânicas associadas a cada técnica.
Os resultados demonstram que a distribuição das tensões depende não apenas do tipo de implante utilizado, mas também das propriedades mecânicas dos materiais e da forma de ancoragem ao tecido ósseo. Essas informações podem auxiliar no desenvolvimento de novos desenhos implantários e na otimização dos fluxos digitais aplicados à reabilitação oral complexa.
Além disso, o estudo reforça a necessidade de integrar considerações biomecânicas ao planejamento cirúrgico e protético, especialmente em casos de grande atrofia óssea, nos quais a previsibilidade do tratamento representa um fator decisivo para o sucesso clínico.
11. Conclusão editorial
Esta análise tridimensional por elementos finitos demonstra que a reabilitação implanto-suportada da maxila atrófica envolve diferentes compromissos biomecânicos, sem que exista uma solução claramente superior em todas as situações avaliadas. Cada abordagem apresenta características específicas de distribuição de carga que podem influenciar o comportamento do osso, dos implantes e das estruturas protéticas. Para implantodontistas e cirurgiões orais, os resultados reforçam a importância de um planejamento individualizado, baseado tanto nas condições anatômicas quanto nos aspectos biomecânicos envolvidos em cada caso clínico.
