Bibliografia
Fatores de risco para complicações após aumento alveolar em etapas e implantação dentária: uma avaliação retrospetiva de 151 casos com blocos ósseos alogénicos e 70 casos com blocos ósseos autógenos
- 20 Dezembro 2022
- Publicado por: anjaform
- Categoria: Alternativas aos Implante subperiosteal
Frank R Kloss, Peer W Kämmerer, Anita Kloss-Brandstätter
Full text link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36614811/
Fatores de risco para complicações após aumento alveolar em etapas e implantação dentária: uma avaliação retrospetiva de 151 casos com blocos ósseos alogénicos e 70 casos com blocos ósseos autógenos
1. Referência científica
- Título do estudo: Fatores de risco para complicações após aumento alveolar em etapas e implantação dentária: uma avaliação retrospetiva de 151 casos com blocos ósseos alogénicos e 70 casos com blocos ósseos autógenos
- Autores: Frank R. Kloss, Peer W. Kämmerer, Anita Kloss-Brandstätter
- Revista científica: Journal of Clinical Medicine
- Ano de publicação: 2023
- DOI: 10.3390/jcm12010006
2. Contexto científico
A reconstrução de defeitos ósseos alveolares constitui uma etapa frequente em implantologia quando o volume ósseo residual não permite uma colocação implantar previsível. Os enxertos ósseos em bloco representam uma estratégia amplamente utilizada para restaurar as dimensões horizontais e verticais da crista alveolar antes da reabilitação implantar.
Historicamente, os blocos ósseos autógenos têm sido considerados um padrão de referência clínica devido às suas propriedades biológicas. Contudo, a sua colheita implica um local dador adicional e expõe o paciente a uma morbilidade específica. Os substitutos ósseos alogénicos tornaram-se progressivamente uma alternativa atrativa para limitar estes constrangimentos cirúrgicos.
Neste contexto, a compreensão dos fatores suscetíveis de aumentar o risco de complicações após aumento ósseo pré-implantar apresenta um interesse significativo. A identificação destes fatores poderá contribuir para otimizar o planeamento cirúrgico e melhorar a previsibilidade dos tratamentos implantares.
3. Objetivo do estudo
O principal objetivo deste estudo foi identificar os fatores associados ao aparecimento de complicações após uma regeneração da crista alveolar realizada com blocos ósseos autógenos ou alogénicos antes da colocação de implantes dentários.
Os autores procuraram determinar quais os parâmetros cirúrgicos, anatómicos ou relacionados com o paciente que poderiam influenciar o risco de complicações durante a fase de reconstrução óssea.
4. Metodologia
Trata-se de um estudo retrospetivo baseado na análise dos processos clínicos de pacientes tratados numa clínica privada de cirurgia oral e maxilofacial entre 2013 e 2019.
A coorte incluiu 164 pacientes consecutivos submetidos a 221 procedimentos de aumento ósseo, realizados com 151 blocos alogénicos e 70 blocos autógenos. Todos os procedimentos cirúrgicos foram efetuados pelo mesmo cirurgião.
Os pacientes foram acompanhados em intervalos regulares para identificar possíveis complicações, tais como deiscência da ferida, perda parcial ou total do enxerto, infeção ou falha implantar.
A análise estatística baseou-se, nomeadamente, em curvas ROC e modelos de regressão logística múltipla destinados a determinar fatores de risco independentes.
5. Principais resultados
A maioria dos procedimentos decorreu sem acontecimentos adversos. Das 221 regenerações realizadas, 88,2 % não apresentaram qualquer complicação.
As complicações foram observadas com maior frequência no grupo tratado com enxertos autógenos. Uma complicação ocorreu em 20 % das regenerações autógenas, em comparação com 7,9 % das regenerações alogénicas.
A complicação mais frequentemente relatada foi a perda parcial do enxerto ósseo, significativamente mais comum com os blocos autógenos.
A análise multivariada identificou quatro fatores associados a um aumento significativo do risco de complicações:
- utilização de um bloco ósseo autógeno;
- tabagismo;
- aumento vertical superior a 2,55 mm;
- sobrecontorno (over-contouring) do volume ósseo reconstruído.
Entre estes fatores, o sobrecontorno revelou ser aquele que exerceu a maior influência sobre o risco de complicações.
Apesar destes acontecimentos, os autores indicam que as complicações observadas permaneceram essencialmente ligeiras e não comprometeram a reabilitação implantar final.
6. Análise clínica
Este estudo fornece uma perspetiva particularmente interessante sobre um aspeto por vezes subestimado da cirurgia pré-implantar: a geometria da reconstrução óssea.
Os resultados sugerem que a quantidade de volume reconstruído não é o único elemento a considerar. A forma como este volume é integrado na arquitetura natural da crista alveolar parece desempenhar um papel determinante. O conceito de sobrecontorno, definido como uma regeneração que ultrapassa o perfil ósseo das estruturas adjacentes, surge aqui como um fator fortemente associado às complicações pós-operatórias.
O estudo também questiona uma prática por vezes adotada em antecipação de uma futura reabsorção óssea. Os dados apresentados indicam que uma regeneração excessiva poderá, pelo contrário, aumentar o risco de exposição do enxerto ou de perdas parciais de material.
Do ponto de vista clínico, os resultados sublinham igualmente a importância do controlo do tabagismo antes de uma cirurgia de reconstrução óssea. O impacto observado nos fumadores está em consonância com as preocupações clássicas relacionadas com a vascularização e a cicatrização dos tecidos.
Por fim, os autores demonstram que os enxertos alogénicos podem apresentar um perfil de complicações favorável nesta coorte. No entanto, esta observação deve ser interpretada com prudência devido à natureza retrospetiva do estudo e às diferenças existentes entre os grupos tratados.
7. Aplicações clínicas
Os resultados deste estudo podem ser particularmente úteis durante o planeamento de tratamentos de reconstrução óssea destinados à reabilitação implantar.
Aplicam-se, nomeadamente, a:
- aumentos horizontais e verticais da crista alveolar;
- protocolos de enxerto ósseo em bloco antes da colocação de implantes dentários;
- situações de défice ósseo localizado após perda dentária;
- casos que exigem reconstrução óssea antes de uma reabilitação implanto-suportada;
- avaliação do risco cirúrgico em pacientes fumadores.
Estes dados podem igualmente contribuir para aperfeiçoar os objetivos volumétricos da reconstrução, de modo a evitar uma correção excessiva suscetível de aumentar as complicações biológicas.
8. Nível de evidência, limitações e transparência
Esta publicação corresponde a um estudo observacional retrospetivo, constituindo um nível de evidência intermédio inferior ao de um ensaio clínico randomizado e controlado.
A coorte analisada é relativamente importante para este tipo de avaliação clínica, com 221 procedimentos de reconstrução óssea. No entanto, várias limitações devem ser consideradas.
A natureza retrospetiva expõe o estudo a um risco de viés de seleção e limita o controlo das variáveis de confusão. Além disso, os grupos autógeno e alogénico apresentavam algumas diferenças iniciais, nomeadamente quanto ao tipo e à extensão dos defeitos ósseos.
Não é mencionado qualquer conflito de interesses específico dos autores nos elementos fornecidos. Os dados disponíveis não permitem aprofundar esta questão.
9. Pontos-chave do estudo
- Tipo de estudo: Estudo observacional retrospetivo.
- Nível de evidência: Moderado.
- População analisada: 164 pacientes.
- Número de enxertos ósseos: 221 procedimentos de aumento.
- Distribuição dos enxertos: 151 blocos alogénicos e 70 blocos autógenos.
- Duração média do seguimento: 3,5 anos.
- Critério principal avaliado: Ocorrência de complicações após aumento ósseo alveolar.
- Resultado principal: As complicações foram mais frequentes com os blocos autógenos.
- Fatores de risco independentes: Tabagismo, sobrecontorno, aumento vertical > 2,55 mm e utilização de blocos autógenos.
- Conclusão científica: As complicações permanecem globalmente pouco frequentes, mas determinadas características cirúrgicas aumentam significativamente a sua probabilidade.
- Possíveis limitações: Estudo retrospetivo, ausência de randomização e diferenças entre os grupos.
10. Impacto científico
Este estudo fornece uma contribuição original para a literatura sobre enxertos ósseos pré-implantares, ao abordar não apenas o tipo de material utilizado, mas também a morfologia da reconstrução obtida.
A identificação de um limiar de 2,55 mm para o aumento vertical representa um elemento interessante para a reflexão clínica, embora este valor deva ser confirmado por outros estudos prospetivos.
Os resultados reforçam igualmente a importância do planeamento tridimensional das reconstruções ósseas e do controlo dos volumes reconstruídos. O estudo destaca um fator técnico — o sobrecontorno — raramente quantificado com tanta precisão nas publicações clínicas.
Para além da comparação entre enxertos autógenos e alogénicos, este trabalho contribui para uma melhor compreensão dos determinantes cirúrgicos suscetíveis de influenciar a cicatrização e a estabilidade das reconstruções ósseas antes da implantação.
11. Conclusão editorial
Este estudo retrospetivo sugere que as complicações após aumento da crista alveolar permanecem relativamente raras quando os protocolos cirúrgicos são corretamente dominados. Contudo, os dados apresentados chamam a atenção para vários fatores de risco modificáveis, em particular o tabagismo, o aumento vertical significativo e o sobrecontorno do enxerto. Para o clínico envolvido na reconstrução óssea pré-implantar, estas observações recordam a importância de um planeamento cirúrgico ponderado e respeitador da anatomia óssea envolvente.
