Bibliografia
Reabilitação de um maxilar superior gravemente atrófico através de um implante subperiosteal personalizado assistido por CAD/CAM: relato de caso com fluxo de trabalho digital
- 16 Fevereiro 2026
- Publicado por: anjaform
- Categoria: Estudos Clínicos e Relatos de Casos
Pablo Revuelta-Cortés, Dorsaf Sahli, Mónica Serrano Torrecilla, Natalia Martínez-Rodríguez, Juan Santos Marino, José María Martínez-González.
Full text link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41707925/
Reabilitação de um maxilar superior gravemente atrófico através de um implante subperiosteal personalizado assistido por CAD/CAM: relato de caso com fluxo de trabalho digital
1. Referência científica
- Título do estudo: CAD/CAM-assisted subperiosteal implant rehabilitation of a severely atrophic maxilla: A digital workflow case report.
- Autores: Pablo Revuelta-Cortés, Dorsaf Sahli, Monica Serrano Torrecilla, Natalia Martínez-Rodríguez, Juan Santos Marino e José María Martínez-González.
- Revista científica: Journal of Stomatology, Oral and Maxillofacial Surgery.
- Ano de publicação: 2026.
- DOI: 10.1016/j.jormas.2026.102762.
2. Contexto científico
A reabilitação implantossuportada de maxilares superiores gravemente atróficos continua a representar um dos maiores desafios da implantologia oral contemporânea. Em doentes que apresentam uma perda óssea extensa decorrente de peri-implantite avançada, o volume ósseo remanescente pode tornar-se insuficiente para a colocação de novos implantes endósseos convencionais, obrigando frequentemente à realização de procedimentos reconstrutivos complexos, associados a maior morbilidade e a tempos de tratamento mais prolongados.
O desenvolvimento das tecnologias digitais veio ampliar as possibilidades terapêuticas nestes casos clínicos. A integração da tomografia computorizada de feixe cónico (CBCT), da digitalização intraoral e do desenho assistido por computador (CAD/CAM) permite atualmente fabricar implantes subperiosteais totalmente personalizados, adaptados à anatomia específica de cada doente. Neste contexto, o presente relato de caso descreve um fluxo de trabalho digital completo para a reabilitação de um maxilar superior severamente atrófico após o insucesso de uma reabilitação implantar anterior devido a peri-implantite avançada.
3. Objetivo do estudo
O principal objetivo deste relato de caso consiste em descrever o protocolo digital utilizado para planear, fabricar e colocar um implante subperiosteal personalizado através da tecnologia CAD/CAM após a remoção de implantes comprometidos por peri-implantite avançada. Adicionalmente, os autores apresentam o protocolo de reabilitação protética subsequente e os resultados clínicos observados durante o período de acompanhamento.
4. Metodologia
O estudo corresponde a um relato de caso clínico envolvendo uma doente de 53 anos com peri-implantite avançada em vários implantes colocados sete anos antes no maxilar superior. A história clínica não evidenciava doenças sistémicas relevantes, embora a doente apresentasse um consumo diário de aproximadamente quinze cigarros. Como parte integrante do protocolo terapêutico, foi recomendada a redução do consumo de tabaco para favorecer a cicatrização dos tecidos moles e otimizar a saúde peri-implantar.
A primeira fase do tratamento consistiu na remoção dos implantes com prognóstico desfavorável, preservando os implantes posteriores estáveis para suportar uma prótese fixa provisória durante o período de cicatrização. Após seis meses, foram realizados uma CBCT e um exame de digitalização intraoral. Os ficheiros DICOM e STL foram posteriormente integrados para conceber um implante subperiosteal personalizado em titânio através de um fluxo de trabalho CAD/CAM. A cirurgia foi realizada sob sedação consciente, sendo o implante fixado com parafusos de osteossíntese de acordo com o planeamento digital pré-operatório. Após a maturação dos tecidos moles, foi confeccionada uma prótese híbrida definitiva constituída por uma estrutura em titânio revestida com material compósito. O acompanhamento clínico e radiográfico decorreu durante dois anos.
5. Resultados principais
O fluxo de trabalho digital permitiu fabricar um implante subperiosteal em titânio totalmente personalizado, concebido de acordo com a anatomia residual do maxilar superior da doente. Segundo os autores, este processo de personalização favoreceu uma adaptação passiva da estrutura durante a cirurgia e tornou possível a reabilitação implantoprotética sem necessidade de recorrer previamente a procedimentos de regeneração óssea.
Após a colocação do implante, foi instalada uma prótese fixa provisória suportada simultaneamente pelos implantes posteriores preservados e pelas conexões do novo implante subperiosteal. Depois da estabilização dos tecidos moles, foi confeccionada uma prótese híbrida definitiva composta por uma estrutura em titânio revestida com material compósito. Antes da sua produção final, foi validado clinicamente um protótipo em PMMA para confirmar a adaptação, a oclusão, a função e a estética da futura reabilitação.
Durante o período de acompanhamento de dois anos, os autores não observaram complicações dos tecidos moles nem complicações protéticas. Com base nesta experiência clínica, concluem que os implantes subperiosteais personalizados produzidos através da tecnologia CAD/CAM poderão constituir uma alternativa terapêutica em doentes cuidadosamente selecionados com atrofia maxilar severa, quando a colocação de implantes endósseos convencionais deixa de ser viável. Os próprios autores salientam, contudo, que estas conclusões resultam de um único caso clínico e devem ser interpretadas com prudência.
6. Análise clínica
O principal interesse deste trabalho não consiste em demonstrar a superioridade dos implantes subperiosteais personalizados relativamente a outras opções terapêuticas, mas sim em documentar a aplicação de um fluxo de trabalho totalmente digital na resolução de uma situação clínica de elevada complexidade. O caso demonstra que a combinação entre planeamento tridimensional e tecnologia CAD/CAM permite desenvolver um implante especificamente adaptado à anatomia remanescente do doente, integrando desde o início os objetivos cirúrgicos e protéticos.
Um dos aspetos mais relevantes prende-se com a abordagem proteticamente orientada adotada pelos autores. O desenho do implante foi desenvolvido em função da futura reabilitação definitiva, permitindo posicionar as conexões protéticas de forma compatível com os requisitos funcionais e estéticos. Esta estratégia acompanha a evolução da implantologia digital moderna, na qual a cirurgia e a prótese são planeadas como componentes de um único processo terapêutico.
O caso evidencia igualmente o potencial dos implantes subperiosteais personalizados em doentes com perda óssea extrema resultante de peri-implantite, nos quais os procedimentos convencionais de regeneração óssea ou a colocação de novos implantes endósseos podem apresentar previsibilidade limitada ou não ser exequíveis. No caso apresentado foi possível evitar procedimentos de aumento ósseo; contudo, o estudo não estabelece qualquer comparação com outras alternativas terapêuticas, não sendo possível concluir qual a abordagem mais eficaz em situações semelhantes.
Os autores salientam ainda a importância da seleção criteriosa dos doentes e do controlo dos fatores de risco. A eliminação da infeção, o período de cicatrização após a remoção dos implantes comprometidos e a recomendação para redução do consumo de tabaco integraram o protocolo terapêutico descrito. Assim, o desfecho clínico favorável observado parece resultar não apenas da precisão proporcionada pelo fluxo digital, mas também de uma adequada preparação biológica e de um rigoroso planeamento cirúrgico.
Por fim, os autores enquadram este caso na literatura científica atualmente disponível, referindo que a evidência sobre implantes subperiosteais personalizados CAD/CAM continua a basear-se essencialmente em relatos de caso e pequenas séries clínicas, com critérios de sucesso heterogéneos e períodos de acompanhamento ainda limitados. Consequentemente, este trabalho deve ser entendido como uma contribuição clínica descritiva que reforça o interesse desta abordagem, mas que necessita de confirmação através de estudos com níveis de evidência mais elevados.
7. Aplicações clínicas
Os resultados apresentados neste relato de caso sugerem que os implantes subperiosteais personalizados fabricados através da tecnologia CAD/CAM podem constituir uma alternativa terapêutica para doentes cuidadosamente selecionados com atrofia grave do maxilar superior, sobretudo quando a perda óssea resultante de peri-implantite avançada impossibilita a colocação de novos implantes endósseos convencionais. Os autores apresentam esta técnica como uma opção de recurso para situações clínicas complexas em que as abordagens implantológicas tradicionais deixam de ser viáveis.
O estudo evidencia igualmente o potencial de um fluxo de trabalho totalmente digital na implantologia contemporânea. A integração entre CBCT, digitalização intraoral, planeamento virtual e tecnologia CAD/CAM permite desenvolver um implante totalmente personalizado, adaptado à anatomia residual do doente e concebido em função da futura reabilitação protética. Esta abordagem favorece uma estreita articulação entre as fases cirúrgica e protética, promovendo um tratamento altamente individualizado.
Contudo, os próprios autores salientam que os resultados obtidos num único caso clínico não permitem estabelecer recomendações clínicas generalizáveis. O verdadeiro papel dos implantes subperiosteais personalizados deverá ser confirmado por estudos prospetivos envolvendo um maior número de doentes, critérios de avaliação uniformizados e períodos de acompanhamento mais prolongados.
8. Nível de evidência, limitações e transparência
A presente publicação corresponde a um relato de caso clínico, representando, por conseguinte, um baixo nível de evidência científica. Apesar de descrever de forma detalhada um protocolo terapêutico inovador e documentar a sua evolução clínica, o desenho do estudo não permite estabelecer comparações com outras modalidades de tratamento nem extrapolar os resultados para a população em geral.
Os autores reconhecem várias limitações importantes. A literatura atualmente disponível sobre implantes subperiosteais personalizados permanece limitada e é constituída essencialmente por relatos de caso e pequenas séries clínicas, caracterizadas por definições heterogéneas de sucesso e sobrevivência implantar, bem como por tempos de acompanhamento variáveis. Acresce ainda a escassez de dados relativos ao comportamento biológico e ao desempenho clínico destes implantes a longo prazo. Assim, os resultados devem ser interpretados com prudência e considerados como evidência clínica preliminar.
No que respeita à transparência científica, os autores declaram não existirem conflitos de interesse financeiros ou pessoais suscetíveis de influenciar os resultados apresentados. Referem igualmente que o estudo não recebeu qualquer financiamento público ou privado, reforçando a independência da investigação realizada.
9. Pontos-chave do estudo
- Tipo de estudo: Relato de caso clínico.
- Nível de evidência: Baixo.
- População estudada: Uma doente de 53 anos com atrofia grave do maxilar superior após falência de uma reabilitação implantar devido a peri-implantite avançada.
- Número de doentes: 1.
- Número de implantes subperiosteais personalizados: 1.
- Período de acompanhamento: 2 anos.
- Objetivo principal: Avaliar a viabilidade clínica da reabilitação através de um implante subperiosteal personalizado fabricado por tecnologia CAD/CAM, seguido de reabilitação protética fixa.
- Principal resultado: Reabilitação fixa concluída com sucesso, sem complicações dos tecidos moles nem complicações protéticas durante os dois anos de seguimento.
- Conclusão científica: Dentro das limitações inerentes a um relato de caso, os implantes subperiosteais personalizados assistidos por CAD/CAM poderão representar uma opção terapêutica de recurso em doentes cuidadosamente selecionados com atrofia maxilar severa, quando a colocação de implantes endósseos convencionais não é possível.
- Limitações do estudo: Caso clínico único, ausência de grupo de controlo, reduzida capacidade de generalização dos resultados, literatura ainda heterogénea e escassez de dados clínicos de longo prazo.
10. Impacto científico
Este relato de caso contribui para o crescente corpo de evidência científica sobre os implantes subperiosteais personalizados desenvolvidos através da tecnologia CAD/CAM, demonstrando o potencial das soluções digitais na reabilitação de doentes com atrofia maxilar severa. A principal inovação descrita não reside no conceito do implante subperiosteal em si, já conhecido na implantologia, mas na sua evolução tecnológica através de um processo totalmente digital que integra aquisição imagiológica tridimensional, planeamento virtual, fabrico personalizado e reabilitação protética orientada desde a fase de conceção.
Do ponto de vista científico, o trabalho descreve de forma pormenorizada um protocolo clínico que combina CBCT, digitalização intraoral, desenho CAD/CAM e fabrico personalizado de um implante adaptado à anatomia específica da doente. Esta abordagem evidencia a crescente integração entre cirurgia e prótese na implantologia digital moderna, favorecendo um planeamento individualizado e uma melhor coordenação entre todas as etapas do tratamento.
O estudo evidencia igualmente as limitações do conhecimento atualmente disponível nesta área. Os autores referem que a literatura continua a basear-se predominantemente em relatos de caso e pequenas séries clínicas, com critérios de sucesso pouco uniformes e períodos de acompanhamento ainda insuficientes para avaliar de forma consistente a sobrevivência e a estabilidade biológica destes implantes a longo prazo. Neste contexto, defendem a realização de estudos prospetivos, multicêntricos e metodologicamente padronizados que permitam definir com maior rigor as indicações clínicas e a previsibilidade desta alternativa terapêutica.
Globalmente, este trabalho representa um contributo relevante para a evolução da implantologia digital, demonstrando a viabilidade clínica de uma abordagem altamente personalizada em situações de extrema atrofia maxilar, ao mesmo tempo que reforça a necessidade de produzir evidência científica de maior qualidade antes da sua adoção mais alargada.
11. Conclusão editorial
O presente relato de caso descreve a reabilitação de um maxilar superior gravemente atrófico através de um implante subperiosteal personalizado concebido com tecnologia CAD/CAM, utilizado após o insucesso de uma reabilitação implantar provocado por peri-implantite avançada. No caso apresentado, o fluxo de trabalho digital permitiu realizar uma reabilitação implantoprotética fixa com evolução clínica favorável, sem complicações biológicas ou protéticas documentadas durante dois anos de acompanhamento. No entanto, tratando-se de um único caso clínico, estes resultados não podem ser generalizados nem considerados suficientes para demonstrar a superioridade desta abordagem relativamente a outras opções terapêuticas.
O estudo evidencia o potencial da tecnologia CAD/CAM e da personalização digital na expansão das possibilidades de tratamento para doentes com atrofia maxilar severa cuidadosamente selecionados. Simultaneamente, os autores salientam a necessidade de desenvolver estudos clínicos prospetivos com amostras mais alargadas, critérios de avaliação uniformizados e seguimentos prolongados, de modo a estabelecer com maior robustez a eficácia, a segurança e a previsibilidade clínica dos implantes subperiosteais personalizados a longo prazo.
